nsformada em uma agonia
surda e os lábios secos e rachados. Quando a pesada porta de
madeira abriu com um rangido, a súbita luz fez seus olhos
doerem.
Um carcereiro atirou-lhe um cântaro. O barro era fresco e
salpicado de umidade. Ned agarrou--o com as duas mãos e
emborcou avidamente. Água escorreu-lhe da boca e pingou
através da barba. Bebeu até pensar que ficaria mal-disposto.
- Quanto tempo...? - perguntou, numa voz fraca, quando não
mais conseguiu beber.
O carcereiro era um homem com ar de espantalho, cara de
rato e barba desordenada, vestindo uma camisa de cota de
malha e meia capa de couro.
- Não se fala - disse enquanto arrancava o cântaro dos dedos
de Ned.
- Por favor - disse Ned -, as minhas filhas... - a porta fechou-se
com estrondo. Ned piscou quando a luz desapareceu, baixou a
cabeça até o peito e enrolou-se na palha. Já não fedia a urina
e a merda. Já não cheirava a nada.
Já não era capaz de distinguir a diferença entre estar
acordado e estar dormindo. A memória caiu sobre ele na
escuridão, tão viva como um sonho. Era o ano da falsa
primavera, e ele tinha de novo dezoito anos e descera do
Ninho da Águia para o torneio em Harrenhal. Via o profundo
verde da campina e cheirava o pólen no vento. Dias tépidos,
noites frescas e o gosto doce do vinho, Lembrava-se das
gargalhadas de Brandon e do enlouquecido valor de Robert
na luta corpo a corpo, do modo como ria enquanto derrubava
dos cavalos homem atrás de homem. Lembrava-se de Jaime
Lannister, um jovem dourado numa armadura branca com
escamas, ajoelhado na grama em frente do pavilhão do rei,
fazendo seus votos de defender e proteger o Rei Aerys.
Depois, Sor Oswell Whent ajudou Jaime a pôr-se em pé, e o
próprio Touro Branco, o Senhor Comandante Sor Gerold
Hightower, prendeu o nevado manto da Guarda Real em
volta de seus ombros. Todas as seis Espadas Brancas estavam
lá para dar as boas-vindas ao seu irmão mais novo.
Mas quando a justa começou, o dia foi de Rhaegar
Targaryen. O príncipe herdeiro usava a armadura em que
acabaria por morrer: cintilante placa negra com o dragão de
três cabeças de sua Casa trabalhado em rubis no peito. Uma
pluma de seda escarlate estendia-se atrás dele enquanto
cavalgaya, e parecia que nenhuma lança conseguia tocá-lo.
Brandon caiu perante ele, tal como Bronze Yohn Royce e até
o magnífico Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã.
Robert tinha feito comentários jocosos com Jon e o velho
Lorde Hunter enquanto o príncipe dava a volta ao campo
depois de derrubar Sor Barristan na última justa pela coroa
de campeão. Ned lembrava-se do momento em que todos os
risos tinham morrido, quando o Príncipe Rhaegar Targaryen
fez o cavalo passar por sua esposa, a princesa dorniana Elia
Martell, e depositou a coroa da rainha da beleza no colo de
Lyanna. Ainda conseguia vê-la: uma coroa de rosas de
inverno, azuis como a geada.
Ned Stark estendeu a mão para agarrar a coroa de flores, mas
sob as pétalas azul-claras estavam escondidos espinhos.
Sentiu-os penetrar-lhe a pele, aguçados e cruéis, viu o lento
fio de sangue correr pelos seus dedos e acordou, tremendo, na
escuridão.
Prometa-me, Ned, sussurrara a irmã de sua cama de sangue.
Ela adorava o odor de rosas de inverno.
- Que os deuses me salvem - chorou Ned. - Estou
enlouquecendo. Os deuses não se dignaram a responder.
Cada vez que o carcereiro lhe trazia água, dizia a si mesmo
que se passara mais um dia. A princípio suplicava ao homem
alguma notícia sobre as filhas e o mundo para lá de sua cela.
As únicas respostas eram grunhidos e pontapés. Mais tarde,
quando começaram as dores de estômago, começou a suplicar
por comida. Não fazia diferença; não era alimentado. Os
Lannister talvez pretendessem que ele morresse de fome.
"Não", disse consigo mesmo. Se Cersei o quisesse morto, teria
sido abatido na sala do trono com seus homens. Ela o queria
vivo. Fraco, desesperado, mas vivo. Catelyn tinha seu irmão;
não se atreveria a matá-lo, ou a vida do Duende estaria
também perdida.
De fora da sua cela chegou-lhe o chocalhar de correntes de
ferro. Quando a porta se abriu, rangendo, Ned pôs a mão na
parede úmida e empurrou-se para a luz. O clarão de um
archote o fez desviar o rosto.
- Comida - grasnou.
- Vinho - respondeu uma voz. Não era o homem com cara de
rato.
Aquele carcereiro era mais robusto e mais baixo, embora
usasse a mesma meia capa de couro e o mesmo capacete de
aço com espigão.
- Beba, Lorde Eddard - enfiou um odre de vinho nas mãos de
Ned.
A voz do homem era estranhamente familiar, mas Ned Stark
precisou de um momento para a identificar.
- Varys? - disse, vacilante, quando o reconhecimento chegou.
Tocou o rosto do homem. - Não estou... não estou sonhando.
Está aqui - as rechonchudas bochechas do eunuco estavam
cobertas com uma barba cheia e escura. Ned sentiu os pelos
rudes com os dedos. Varys transformara-se num carcereiro
grisalho, que fedia a suor e a vinho amargo. - Como
conseguiu... Que tipo de mago é você?
- Um mago sedento - disse Varys. - Beba, senhor. As mãos de
Ned apalparam o odre.
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